para refletir: sobre a moralidade, em geral, dos ateus

Texto interessante, que vai de acordo com o meu pensamento (na verdade, convicção): a moral não vem da religião.

http://maesouateu.wordpress.com/2009/08/10/paises-ateus-sao-mais-justo-confirmam-pesquisas/

Países ateus são mais justos, confirmam pesquisas.


Faz quase um século e meio que o famoso escritor russo Dostoievski proferiu a famosa frase em “Os Irmãos Karamazov”: Se Deus não existe tudo é permitido. Muitos religiosos expressam com essa frase a idéia de que sem a crença em algo divino os homens não teriam um limite, nenhuma razão para fazer o bem. Sem a promessa de uma vida eterna e feliz os homens não fariam o bem a fim de buscá-la e sem a ameaça de um tormento eterno para quem não controlasse seus instintos, os homens não conseguiriam controlar-se e perder-se-iam em hedonismo. Mesmo que, como disse Bertrand Russel, uma virtude que tem suas raízes no medo não seja lá muito digna de ser admirada, para muitos ela é a única possível para nós, pecadores por natureza. Apontam casos onde o ateísmo predominou e o que se seguiu foi uma série de enormes barbáries, como na antiga União Soviética. Mas não poderia haver mesmo possibilidades de se levar uma vida ética e justa sem Deus?

Segundo o sociólogo norte-americano Phil Zuckerman isso é efetivamente possível. De acordo com uma pesquisa que ele realizou e publicou em seu livro “Society Without God – What the Least Religious Nations Can Tell Us About Contentment” [Sociedade sem Deus – O que as nações menos religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação], os países menos religiosos do mundo são os mais justos, mais éticos, possuem forte economia, baixa taxa de criminalidade, os mais altos índices de qualidade de vida, altos padrões de vida e igualdade social. Ao contrário, os países mais religiosos são aqueles com maior desigualdade, criminalidade, corrupção, injustiça e outras pragas sociais, como Brasil. Com essa pesquisa ele provou que é errada a crença dos norte-americanos e de outras pessoas (como os brasileiros) de que um país sem Deus inevitavelmente cairia na criminalidade, na imoralidade e na degeneração. Muito pelo contrário, os países mais éticos e justos são a Suécia e a Dinamarca, que são os países com maior quantidade de ateus no mundo e com baixíssima religiosidade (recentemente outra pesquisa mostrou que os dinamarqueses são as pessoas mais felizes e satisfeitas do mundo). Mostra algo que todos os ateus já sabiam e que somente os crentes ignorantes sobre o assunto alimentam com seu preconceito: é possível valorizar o bem, a justiça, o homem e a vida por si mesmos, sem precisar acreditar que Deus nos castigará se não o fizermos. Completa Zuckerman:

“Os dinamarqueses e os suecos têm um respeito muito forte pela dignidade humana. Eles criaram sociedades com as menores taxas de pobreza do mundo, as menores taxas de crimes violentos do mundo e o melhor sistema de educação e de saúde do mundo. Eles fizeram isso não como uma tentativa de agradar ou alcançar Deus, mas porque vêem um valor manifesto na vida humana e acreditam que o sofrimento é um mal em e além de si mesmo.”

(Entrevista na íntegra: http://integras.blogspot.com/2008/12/pas-menos-religiosos-so-os-mais.html)

Encontrei os números em um site evangélico:

“Suécia (85%), Vietnam (81%), Dinamarca (80%), Noruega (72%), Japão (65%) e República Checa (61%) respectivamente, encabeçam a lista, seguidos por Finlândia (60%), França (54%), Coréia do Sul (52%), Estônia (49%), Alemanha (49%), Rússia (48%), Hungria (46%), Holanda (44%), Inglaterra (44%) etc. Todos esses países possuem alta renda per capta, exceto o Vietnam, onde o ateísmo não é orgânico, mas coercivo, isto é, imposto ou induzido pelo regime político ou religioso. Essa situação é encontrada também nos países do continente asiático – o mais populoso do mundo –, na Oceania e no Oriente Médio.”

(Fonte: http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=74&materia=837)

Outra fonte vem de Sam Harris, famoso filósofo ateu norte-americano em “Carta A Uma Nação Cristã”, onde ele mostra que os países mais desenvolvidos, justos e igualitários do mundo são compostos, em sua grande maioria, por ateus e não-religiosos. Nações desenvolvidas, mas que são muito religiosas, como os Estados Unidos, possuem taxas de criminalidade, injustiça, desigualdade, etc. menores que as dos países subdesenvolvidos, mas no entanto ficam muito aquém dos países ateus da Europa. Os Estados Unidos são um país com alta taxa de criminalidade, ao contrário dos países “ateus” do norte da Europa. Sam Harris mostram ainda que a criminalidade na Europa poderia ser ainda menor se não fosse por conta da imigração. Mostra que na França, 70% (!) dos detentos nas prisões francesas são muçulmanos. A quantidade de ateus nas prisões francesas é muito pequena. Ao contrário do Brasil, onde o ateísmo não chega a 5%, portanto seria normal não encontrar muitos presidiários ateus (e não encontram), na França existem muitos ateus, mas eles não saem por ai cometendo todos os tipos de crimes. Sam Harris continua:

“Noruega, Islândia, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda. Dinamarca e Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da Terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores da expectativa de vida, alfabetização, renda per capta, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídio e mortalidade infantil.”

Dostoievski estava errado. É possível viver bem, justa e eticamente sem Deus. Muitos acham que os ateus, por não acreditarem em Deus, também não acreditam em valores morais, mas é justamente o contrário. Ateus acreditam no bem, no amor, na igualdade e na justiça. Mas diferentemente dos crentes, os ateus pensam em tais coisas com bens em si mesmos. Não pensamos que devemos ser justos e morais porque se não fôssemos assim seríamos punidos por um ser superior, mas devemos ser justos e morais porque isso é o certo. Além do mais, acreditar em Deus não garante um comportamento mais moral e justo, por isso existem as leis escritas e a polícia. Mesmo que todos acreditassem em Deus e freqüentasse a Igreja todos os Domingos, muitos deles não cometeriam crimes, não por fé em Deus, mas por medo da justiça dos homens mesmo.

Se os ateus são mesmo os monstros devassos pintados pela religião e pela Bíblia, como eles conseguiram formar uma sociedade mais justa e igualitária que os religiosos? Zuckerman responde:

“Não é necessário acreditar em Deus para acreditar na justiça. De fato, se poderia argumentar que aqueles que acreditam fortemente em Deus podem ser mais indiferentes e assumir que “tudo está nas mãos de Deus”, enquanto que os seculares sabem que a possibilidade de construir uma vida e um mundo melhores está nas mãos deles e apenas deles. Então, os dinamarqueses e os suecos contaram apenas com o seu próprio esforço – não com orações a Deus.”

Igor Roosevelt

Rezar surte algum efeito? por Gabriel Galvão

Rezar surte algum efeito?

Ontem à noite li em alguma esquina dessas da internet a seguinte citação: “Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor.” (Prov. 19.21). Tive, imediatamente, o impulso de responder mas hesitei. Se alguém é feliz acreditando nisso, que tenho eu com isso, não é mesmo?

Acordei hoje pensando na frase e lembrei, meio que por acaso, do brilhante texto de George Carlin ‘Religion is Bullshit’, onde põe no lugar de deus o ator Joe Pesci, famoso pela interpretação de papeis de caras durões no cinema. Fala, hilariamente, que “Joe Pesci gets things done (…) [and] it’s amazing what you can achieve with a baseball bat”. Carlin termina falando que a mesma proporção de vezes em que suas preces são atendidas por Joe Pesci é a de que suas preces foram atendidas por deus, 50%. No final, trata-se de uma questão de puro acaso. O que acontece é que há justificativa para tudo. Se deus não atende, é porque não era de sua vontade. Se “atende”, é a ‘Graça de Deus’. O fato é que toda a valoração de se uma prece foi atendida ou não e se ela foi atendida por um deus ou pelo curso normal dos eventos,  é uma valoração humana e sujeita à natureza inclinada à fé e ao faz-de-contas dos homens.

Leiamos novamente a citação inicial. Lembro claramente, da época de catecismo, que deus possui um Plano Divino. Acredito que, desta citação de Provérbios, se faça alusão a justamente este plano. Se deus é perfeito e tudo que cria é perfeito, conclui-se que seu plano também deva ser perfeito. ‘Plano Divino’ possui, de fato, toda a pompa de ser algo perfeito.

Continuemos.

A conclusão natural é a seguinte: não adianta rezar. Quem somos nós para querermos interferir no plano divino de deus? E qual é o sentido de um plano divino se ele está susceptível ao egoísmo de cada um dos cristãos?, esse povo que trata sua divindade como Help Desk. Partindo novamente do fato de deus ser uma entidade perfeita e considerar-se, como ponto pacífico, que dessa entidade emanou tudo, inclusive as regras de funcionamento de todas as ciências que o homem até agora estabeleceu, há, também, uma via por onde rezar não faz sentido. Qual é o sentido de uma entidade criar leis naturais perfeitas só para ser obrigada a mudá-las para satisfazer as vontades mesquinhas de um mero ser humano?

Nos dois casos, quebra de leis naturais e ruptura do curso do plano divino, os próprios acontecimentos (a quebra) já seriam sinalizadores de que nem as leis nem o plano são perfeitos. Ora, se são perfeitos, não devem estar sujeitos a mudanças, pois não necessitariam. Por que rezar, então? Rezar não faz sentido algum. Bem, façamos justiça, acredito que haja efeitos sob a mesma pessoa que reza mas, neste caso, devemos notar que a grande parte das pessoas que rezam efetivamente acreditam que uma entidade terceira (deus, no caso) irá fazer suas compras, arranjar-lhe um namorado, um marido, matar alguém de doença, proteger políticos corruptos (…) ad infinitum.

Há, além do mais, um outro questionamento moral. Suponhamos que deus atende a preces por um instante só. Se ele atende, porque não acaba com a fome da África? Veja bem que não estou aqui dizendo que o suposto deus é o responsável por isso. A pergunta é sã e faz sentido. Lembre que crianças que passam fome também rezam. Por que o problema delas não é solucionado? E você aí que acredita no poder da reza. Por que você acha que deus deveria ouvir você em vez de uma criança que passa fome? Você se considera tão melhor e mais necessitado de ajuda do que um ser humano faminto e tratado como lixo? Se você usa a lógica, já percebeu que rezar não faz nenhum sentido. E essas pessoas que rezam deveriam ter vergonha de fazê-lo, sabendo da existência de pessoas com necessidades muito mais urgentes. É uma questão de ética.

P.S.: Não há casos de amputados cujo membro se regenerou. Tenho certeza que há amputados cristãos que rezam e pedem isso em suas preces. Por que será que até hoje nenhum caso de regeneração de membros foi registrado?